Texto de Sala da Exposição

A exposição coletiva “Identidades: Variáveis Convergentes” propõe-se na linha de continuidade de um conceito expositivo itinerante que constitui três exposições como instrumentos e objetos de investigação. Como parte da jornada, durante esta terceira e última etapa do percurso que começou em Aveiro e passou por Cabo Verde, o projeto “Conceito Itinerante” propõe uma relação com o seu eixo curatorial, a Casa-Museu Abel Salazar, através de um olhar experimental e laboratorial que objetiva a exploração de confrontos, singularidades no espaço museológico e suscitar diferentes interrogações sobre aspetos identitários. Assim, propostas criativas que partem de pressupostos estéticos e artísticos distintos imprimem à cadeia do processo expográfico um sóbrio e articulado continuum de construções e sinergias. A articulação entre as linguagens artísticas é alcançada na convergência entre o empírico e o artista. O entretecimento de intervenções virtuais e físicas, enquanto variáveis de interesse que compartilham o mesmo espaço físico, e a transformação dessas perceções e imagens permitem inferir paradigmas sobre a questão da identidade tomada como traje que se muda consoante o conceito. Neste contexto expositivo, as facetas da coleção da Casa-Museu Abel Salazar permitem dissecar identidades à medida que as características do espaço físico não obstam a atuação de um domínio sobre o outro.

Certamente, as pontuais intervenções no espaço museológico proporcionam relações prismáticas evidentes desde o interior até ao exterior da Casa-Museu. Através duma subtil deslocação estrutural dos elementos metálicos das grades e guarda corpos, André Alves cria um envoltório em fita sinalizadora de perigo que dialoga com a memória da Casa-Museu. Este entorno da exposição, contrariado no interior pela intervenção diferenciada, faz uma alusão à assunção e possessão das estruturas robustas e escultóricas da Casa-Museu, transformando-as em elementos pictóricos efémeros, suscetíveis a múltiplas alterações e interpretações.

A intervenção de Rodrigo Oliveira é um percurso de leitura que passa por dois momentos. Começa a partir de uma mesa que nos remete para as charadas que Abel Salazar desenhava nas suas cartas enigmáticas mas que na realidade é uma obra inspirada numa mesa de laboratório ou no jogo do Tangram. É ela que vai estimular o visitante à interação criativa com a obra. O segundo momento passa pela instalação do chão da marquise da Casa-Museu na sua capela, criando a convergência do local de memória da arquitetura do espaço com um lugar de reflexão.

Encarando a arte como crença, Vítor Israel cria a partir do espaço—a capela da Casa-Museu—uma composição pictórica com a intenção de entronizar a génese da pintura que começou em espaços sagrados semelhantes. O itinerário que vai da construção à figuração passa por um conjunto de elementos inseridos no espaço e que remetem para a imagem de uma laje sepulcral. Seis pinturas pontuam o espaço expositivo e rememoram uma vestimenta com linhas rígidas e geométricas das suas capas que contrapõem-se à génese têxtil das mesmas e alcançam uma transcendência espiritual através dessas formas. Através dessas relações, o artista convida o público a construir a sua própria narrativa à volta de uma identificação pessoal com uma capa, vestindo-a consoante as circunstâncias e contextos.

Num quotidiano marcado por características peculiares como jogos de trocas simbólicas, a intervenção e apropriação do espaço feitas por Miguel Leal revelam uma preocupação nítida com o binómio Deve–Haver, desdobrando-se em intervenções que envolvem a relação criada entre variáveis tais como a manipulação do espaço, as molduras, os desenhos e os imponentes livros de “Deve e Haver” expostos nas vitrines. Um vive do outro num confronto revelador entre duas variáveis antagónicas, revelando um valor intrínseco decorrente da diferença constante desse binómio, o ganho ou a perda, resultante de uma troca e assente sempre numa função económica subjetiva em termos dos seus valores inerentes em jogo.

A perceção do espaço, juntamente com a incorporação do mobiliário da coleção da Casa-Museu, revelam elementos que apontam para o paralelismo entre dois mundos, o interior e exterior, sem confrontação mas em coexistência. Ante a complementaridade que ostentam duas obras, Ana Vieira revela cenários e memórias de paisagens criadas e recriadas e que nos convocam para lugares onde uma força transcendente impõe um resposta emocional ao invés duma mental. As obras irradiam questões através de olhares de cariz decorativo ou de design de interior e dão azo à possibilidade de trânsito para um plano íntimo e emocional. São traspasses de olhares, imersos em paisagens, onde uma possível domesticidade teatraliza, amplifica in loco, uma aura de mistério.

A linguagem de Raquel Melgue é conscientemente influenciada por processos e elementos de reflexão como vivenciar, receber informações e armazená-las na memória, ao mesmo tempo que as influencia nesta sua intervenção na Casa-Museu. A proposta tem no seu âmago a imersão num universo ficcional onde o real impõe-se como exercício de transgressão e ou transfiguração da memória. Tal processo criativo surge em congruência com a forma hexagonal do espaço e as combinações geométricas do espaço, remetendo para questões transcendentais e ocultas da magia das formas, estimulando o visitante ao mergulho nesse universo imaginário.

Num território de passagem entre um espaço habitável e outro, o primeiro piso e o segundo, a instalação de Isaque Pinheiro faz uso de um arte metafórica—Arte e lixo. Uma questão de contexto no caminho da Arte Preconceitual—e cria uma ligação entre dois pontos num espaço de transição. O tudo sustentado pelo equilíbrio gerado pela solidez do corrimão e a aparente instabilidade duma pilha de livros. O único elemento decorativo pertencente à obra é uma casca de banana, que alegoricamente alude a descontextualização da arte e os deslizes social, cultural e artístico que Abel Salazar provocou no seu tempo e que ainda provoca.

A transposição do discurso conceptual através da criação de espaços de descobertas, onde o conceito de arte sozinho não seria possível sem a Forma e a Emoção, permeia a construção da tese curatorial que o “Conceito Itinerante” pensou para a Casa-Museu Abel Salazar. À luz desse cenário, as disjunções e/ou as associações, as formações visuais dentro de um universo partilhado e a disposição espacial num espaço de convergência procuram construir uma narrativa a ser lida pelos visitantes numa perspetiva de estímulo e veículo para a formulação de novos espaços de apreensão de identidades e novos caminhos a serem trilhados.

Marzia Bruno, Curadora

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Cartaz

[0] Cartaz 7

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