Ana Vieira

A perceção do espaço, juntamente com a incorporação do mobiliário da coleção da Casa-Museu, revelam elementos que apontam para o paralelismo entre dois mundos, o interior e exterior, sem confrontação mas em coexistência.

Ante a complementaridade que ostentam duas obras, Ana Vieira revela cenários e memórias de paisagens criadas e recriadas e que nos convocam para lugares onde uma força transcendente impõe uma resposta emocional ao invés duma mental. As obras irradiam questões através de olhares de cariz decorativo ou de design de interior e dão azo à possibilidade de trânsito para um plano íntimo e emocional. São traspasses de olhares, imersos em paisagens, onde uma possível domesticidade teatraliza, amplifica in loco, uma aura de mistério.

Marzia Bruno

Biografia

Ana Vieira (Coimbra, agosto de 1940 – Lisboa, 29 de fevereiro de 2016) integra um grupo prestigiado e restrito de mulheres artistas que, em Portugal, souberam e sabem realizar uma obra artística sem cedências de qualidade.

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De origem açoriana da parte do pai e conimbricense do lado materno, Ana Vieira viveu toda a infância nos Açores, facto que marcaria indelevelmente o seu trabalho. Muros de abrigo, o nome escolhido para a grande retrospectiva que o Museu Gulbenkian lhe consagrou em 2011, refere uma característica específica da arquitectura rural açoriana: os muros construídos nas propriedades para proteger as culturas do ar salgado. Na altura, a artista contava que se passava de muro para muro por portas que se abriam nas paredes, sendo que a última porta dava para o mar. Já nessa memória se destacava aquela que seria uma das grandes constantes do seu trabalho plástico: a dialéctica entre a ocultação e a desocultação de um lugar, preferencialmente de um lugar privado, doméstico.

No começo dos anos 60, Ana Vieira muda-se para Lisboa para frequentar a Escola de Belas-Artes. Formar-se-ia em 65, tendo entretanto conhecido aquele que seria o seu marido, o pintor Eduardo Nery. Era mãe de Paula Nery e do arquitecto Miguel Nery.

Pouco tempo depois começa também a expor, primeiro colectivamente e, a partir de 68, individualmente em galerias e museus. Na Quadrante, na Quadrum, em diferentes instituições açorianas, na Gulbenkian e no CAPC de Coimbra, antes de uma internacionalização que tardou a vir, apresentou obras e projectos que tinham em comum a recusa da facilidade comercial. Logo nos anos 70 criou, por exemplo, os Ambientes, entre os quais uma Sala de Jantar pertencente hoje ao Museu Gulbenkian.

Tratava-se de dispositivos formados por cortinas e véus onde se vislumbravam silhuetas de objectos característicos do espaço doméstico e feminino – mesas, cadeiras, armários –, sem que, contudo, o visitante pudesse penetrar nesse espaço. Muitas das peças de Ana Vieira situavam-se nesta fronteira entre o que é acessível e visível e o que não é. Para além dos Ambientes, a grande antológica da Gulbenkian mostrou também corredores, salas escurecidas e lugares com palavras escritas apenas legíveis graças a um tipo de iluminação especial. Estas últimas, de uma radicalidade pouco comum, obrigavam o visitante a um exercício de voyeurismo que replicava a própria experiência do objecto de arte.

Texto e foto: Jornal Público

Ana Vieira

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