Cidade Velha

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Ribeira Grande, primeiro núcleo populacional surgido em Cabo Verde, foi fundada por volta de 1462.

Do início do povoamento ao século XVII, o desenvolvimento socio-económico da ilha seria impulsionado pelo lucrativo tráfico negreiro. Sucessivos contingentes de escravos eram adquiridos na Costa da Guiné pelos armadores de Santiago, sendo depois desembarcados no porto da Ribeira Grande.

Alguns escravos iam ficando nas ilhas para atender as necessidades locais, mas a maior parte era enviada para as “Américas”, sobretudo para as chamadas Índias de Castela.

Assim a Ribeira Grande se transformou num dos entrepostos do comércio de escravos de maior relevo no Atlântico. Pelo grau de seu desenvolvimento, adquiriu rapidamente o estatuto de Cidade em 1533.

Com uma participação activa no tráfico de escravos, Ribeira Grande testemunhou momentos de grande opulência, atingindo seu auge em meados/finais do século XVI.

A grandiosidade de alguns edifícios construídos na Cidade reforça a ideia da opulência então vivida, o que os monumentos, em ruínas na grande sua maioria, que ainda hoje existem e ilustram.

Os lucros, provenientes do tráfico negreiro, permitiam suportar os altos custos que a construção dessas obras implicavam. Grande parte dos materiais de construção (madeira, telhas, mármore e cal) vinha da Europa.

Os problemas começaram a surgir na segunda metade do século XVI, com a concorrência de outras potências marítimas (Franca, Inglaterra e Holanda) no tráfico negreiro. A economia de Santiago sofre um profundo golpe, e, a partir dessa altura, a Ribeira Grande entra num irreversível processo de declínio, patente não só na extrema miséria a que chegaram os seus moradores, mas também na degradação física dos edifícios ali construídos.

A este processo não serão também alheios os ataques piratas de que se destacam o comandado por Francis Drake, em 1585, e o mais devastador levado a cabo pelo francês Jaques Cassard em 1712.

Com o declínio do comércio de escravos, a população, sobretudo a elite, aos poucos vai abandonando a cidade, com destino a outros lugares mais atractivos, nomeadamente a Cidade da Praia. Ribeira Grande transforma-se numa “Cidade Velha” habitada por moradores praticantes de uma economia quase exclusiva de subsistência.

Património Mundial da Humanidade

O Comité do Património Mundial, reunido a 26 de Junho de 2009, em Sevilha, integrou na Lista do Património Mundial da Humanidade o centro histórico de Ribeira Grande que é um testemunho da presença colonial europeia em África e da história da escravatura.

Situada no sul da ilha de Santiago, conserva uma parte do seu traçado urbano primitivo e edifícios e espaços admiráveis como “duas igrejas, uma fortaleza real e a praça do Pelourinho com a sua coluna de mármore de estilo manuelino”.

Esta classificação da UNESCO esteve de acordo com os seguintes aspectos:

– Por ser a primeira capital das ilhas de Cabo Verde, desenvolvida a partir de 1462, época do inicio da ocupação da ilha de Santiago, no contexto do processo de expansão marítima europeia, liderada entre os séculos XV e XVII por Portugal e Espanha e que, devido a sua posição estratégica, se transformou num ponto chave nas rotas entre Europa, África e América, assim como Ásia através da Rota do Cabo.

– Por ter sido a primeira cidade-porto construída por e para o tráfico transatlântico de escravos, sendo o maior movimento transoceânico de povoamento que registra a historia moderna.

– Por ter sido o “berço” da emergência de uma nova cultura, a cultura cabo-verdiana.

– Por ter albergado no seu espaço, antes das sociedades americanas, uma sociedade multiétnica que pôs em contacto permanente e duradouro africanos de Senegambia e europeus, principalmente da Península Ibérica, criando um quadro sociológico gerador de hibridismos culturais (como exemplos: musicalidades, religiosidades, expressões linguísticas e outros).

– Por ter sido um centro de projecção de poder e de controlo do oceano e das rotas do comércio ultramarino, albergando por esse motivo uma estrutura de funcionários fiscais, militares, religiosos, sendo a primeira sede de governo europeu e bispado ao Sul do Sahara.

– Por ter sido o palco da criação e a recreação do mundo atlântico.

– Por ter sido um espaço urbano que sintetiza diferentes formas de urbanismo tardomedieval e renascentista lusitano e por ter constituído um laboratório para a introdução de produtos e formas de exploração agrícolas procedentes de todos os continentes.

Convento de São Francisco

A igreja e convento de São Francisco começaram a ser edificados, a partir de 1640, numa área cedida por uma residente rica da ilha de Santiago, de nome Joana Coelha.

O templo é de planta longitudinal, composta por uma única nave e capela-mor rectangular profunda. A fachada principal da construção, direccionada para a urbe, apresenta um único pano de frontão triangular, rasgado por um portal, entretanto desaparecido, rematado por um grande vão rectangular com grades em ferro. Vê-se ainda nesta fachada um campanário com janela em arco de volta perfeita sobrepujado por um pequeno frontão triangular. No interior da nave pode-se ainda notar a marcação da presença de um piso superior – possivelmente o coro-alto.

Geralmente os conventos franciscanos nas cidades insulares atlânticas de origem portuguesa, estavam localizados fora do núcleo populacional, mas próximos da implantação urbana existente, em zonas de acesso fácil, tendo por trás espaços não edificados. Os conventos funcionavam por um lado, como pólos de actividade missionária, por outro, de desenvolvimento e expansão urbana.

Na cidade de Ribeira Grande, o convento dos franciscanos foi instalado a nordeste do aglomerado, no interior do vale, num elevação não muito distante do porto. Imponha-se como elemento marcante na paisagem e populações locais, não só pelo seu valor simbólico e religioso, mas também como elemento de protecção em caso de eventuais conflitos.

Os trabalhos de restauro realizados nos anos 2001/2002 com o apoio da Cooperação Espanhola permitiram a reutilização da igreja para diversas actividades culturais (concertos, conferências e exposições).

Fontes: Com informações da “Cidade Velha – Património Mundial” e Carlos Santos – “O convento e Igreja de São Francisco e a expansão urbana da Cidade Velha”