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Identidades: Âncoras de Passagem

Identidades: Âncoras de Passagem

Aos artistas, colaboradores, amigos e público em geral do projecto “Conceito Itinerante”.

Certamente, para que as memórias não fiquem no passado, mas revividas no presente, tomei a decisão de fazer uma reflexão pessoal ao percurso feito pelo projecto “Conceito Itinerante”. Tirando proveito de um distanciamento temporal de três meses em relação ao epílogo da etapa cabo-verdiana do projecto – Âncoras de Passagem –, pretende-se levar a cabo uma ponderação crítica sobre factos e atitudes que gravitaram à volta do evento, projectando o foco da análise na simbiose entre o “conteúdo” e a “forma”.

Tendo como ponto de partida a constatação de que a “forma” proveio dum prévio trabalho de campo (instalação, fotos, vídeos e entrevistas realizadas) e que o “conteúdo” resultou da análise científica, elaboração curatorial e implementação, importa reforçar um conceito elementar – um “evento” estruturado com conteúdo ao invés da mera aparência, não será esquecido e os conceitos desenvolvidos levarão ao conhecimento e desenvolvimento futuro. Naturalmente, para que isso aconteça, torna-se necessário que o homem/espectador (artista ou colaborador) o veja, o interiorize e o viva. É este actor que sente este fenómeno de envolvência, consegue sentir e apreciar a “forma”, juntamente com o “conteúdo”, percepcionando que são únicos no conjunto.

Indubitavelmente, a “forma” e o “conteúdo” encontraram-se na exposição “Identidades: Âncoras de Passagem”. A verdade artística coincidiu com a pura “forma”, a verdade dinâmica coincidiu com o puro “conteúdo” e as obras expostas apresentaram uma pluralidade de sentidos. Estes sentidos foram e são sempre verdadeiros porque pertencem ao homem/espectador (artista ou colaborador), por isso, a verdade do sentido pertence à individualidade do sujeito, e como tal, a verdade da arte é a verdade do sentido, o sentido das coisas. É o caracter fenomenológico da imagem, da obra, que nos embala nos sentidos. Questiona-se, a este propósito: Será que o homem/espectador (artista ou colaborador), sentiu, ouviu e lembra-se? Se não existisse sentido em fazer arte, o que veríamos? Cabe recordar a este respeito que a arte contemporânea parece-nos, às vezes, inacessível, porém questiona-nos sobre a estigmatização e a abordagem mais apropriada – se calhar um cliché, se calhar não – mas ainda é percepcionada como uma disciplina elitista, extravagante e excêntrica.

A verdadeira âncora de salvação é a compreensão e a distinção da verdadeira linguagem que constitui a arte do nosso tempo. Por isso, acredito que na fase de compreensão não é primário o estatuto artístico atribuído a uma obra mas sim a sensibilidade do ho-mem/espectador (artista ou colaborador) que fará emergir o valor estético da obra. Esta sensibilidade afina-se graças à educação e à formação cultural, no seu sentido mais amplo. Certamente, a compreensão artística surge no prato de uma pessoa não como fruto do acaso, mas sim de um comprometimento voluntário para com elementos que são indissociáveis como a sensibilidade, a percepção e o pensamento artístico, para que essa pessoa tenha o paladar adestrado por forma a saborear, enlambuzar e nutrir-se plenamente dos alimentos servidos nesse prato. Terá que encontrar na “forma” e no “conteúdo” o caracter biunívoco, num exercício, numa postura e numa atitude, que a meu ver, está por maturar. Há posturas e atitudes que revestem-se de especial importância e que obviamente não levam a lado nenhum: desculpabilizar-se, vitimizar-se, atribuir a culpa a terceiros, não cumprir com a palavra dada, a crítica pela crítica – ancorada no vazio alternativo, deixar-se estar e aguardar que algo aconteça ou que alguém faça, ou simplesmente negligenciar. Cair no erro crasso de tomar por acabada uma exposição após a sua inauguração, altura ideal para posar para a fotografia, é o pior desrespeito que se possa fazer à arte, especialmente quando empossados num cargo com responsabilidades inerentes ao evento. Sensatamente, uma questão do foro da consciência.

Não quero terminar sem agradecer a todos os que me ajudaram ao longo destes meses de trabalho: aos artistas, à Dr.ª Prof.ª Leonor Soares, aos patrocinadores, aos palestrantes da conferência, aos funcionários, aos amigos, à família e àqueles que estavam longe fisicamente mas perto nas palavras. Um agradecimento especial aos visitantes e às crianças que participaram nas actividades educativas e que deram criação artística e vida ao projecto. Deixo à apreciação o vídeo e os meus votos de cumprimentos, esperançosa de que algo amadureça com o tempo e que não apodreça a esperança. Brevemente os restantes vídeo e artigos sobre as obras serão publicados para que aqueles homens/espectadores (artistas ou colaboradores) os possam apreciar, degustar ou criticar. Estou convicta de que o trabalho realizado foi também enriquecido pelos contributos de todos.

Identidades: Âncoras de Passagem

By Conceito Itinerante

Uma exposição itinerante que objectiva: a interação da arte em espaços não através de uma itinerância material da arte mas através da itinerância de um conceito expositivo, criando uma identidade conceptual que tenha o condão de metamorfosear-se na diversidade da linguagem artística. Introduz-se uma componente singular, uma nova abordagem ao conceito do curador face à itinerância, fazendo viajar não as obras mas uma ideia que se adapta aos espaços, histórias e cidadãos, tendo em conta a conservação da integridade da arte, rentabilizando recursos, difusão, partilha e comunicação através da translação de um conceito.

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